[bom te ler] nova idade

Olá, como estão?

Quando meu pai estava pra fazer 65 anos, ele ficou numa alegria sem par. Achei estranho. Como a maioria das pessoas que aniversaria em datas comemorativas- ele nasceu no natal-, nunca o tinha visto excitado com o próprio aniversário. Ele mesmo esclareceu:

- Estou feliz porque, agora, eu posso fazer o que eu quiser. Qualquer loucura, qualquer doideira. Agora que eu tenho 65 anos, eu estou livre. As pessoas simplesmente vão olhar e dizer: "Deixa esse velho pra lá. Coitado, ele está louco".

Livre, velho e louco. Considerando que em 1989 alguém com 65 podia ser considerado, de fato, velho, entendi o que ele queria dizer. Chega um momento na vida quando acabamos recebendo permissão para sermos quem somos. Uma permissão tanto dos outros, como de nós mesmos. Uma permissão para sermos livres, velhos e loucos.

Quando a gente deixa de ser criança, outro período onde vale tudo, e começamos a nos tornar adultos, as forças da conformidade caem de pau na gente, nos seduzindo com recompensas vazias ou nos amedontrando, com a idéia que não somos bons o suficiente para receber amor. Por isso, vestimos personagens no trabalho, nas relações familiares e sociais, para sermos, não nós mesmos, mas alguém que se encaixe. No quê? Vai saber. E o pior é que não funciona. A gente nunca se encaixa. Em nada.

E, assim, depois de anos de tentativas e erros sem fim, acabamos cansando e descobrimos que o melhor era ser a gente mesmo desde o começo. E, quando cai essa ficha, parece que enlouquecemos, ou, como dizem os astrólogos, começamos a assumir as características do nosso ascendente.

Esse é um momento mágico. Um momento em que assumimos que as dificuldades da vida vão nos atingir de qualquer maneira, quer a gente queira, quer não. E se elas são inevitáveis, melhor economizar o esforço do teatro e assumir nossas loucuras e nossas liberdades. Esse é o momento em que uma nova idade nos torna uma novidade. Até pra nós mesmos. Livres, velhos e loucos.

Hoje completo 47 anos. Faltando 18 para os 65, quando meu pai teve a sua epifania, resolvi começar a amadurecer a minha loucura; aos poucos, em pequenos atos, marcando lentamente o meu espaço mental. Dizendo não pro que eu nunca quis fazer; dizendo sim para o que amo e do qual me privei por tanto tempo. Pra quem olhar de fora, pode até parecer que estou ficando louco, mas não é bem isso; eu simplesmente decidi ser livre. E velho. Uma bela novidade.



  • E o 7 de setembro, hein? Que palhaçada. No meu prédio rolou até batalha de DJs. Mas no fim das contas, cheguei à conclusão que o problema do Brasil é mesmo a Patriotite. No mais, apesar dos arregos e notas de recuo, é importante continuar de olho nos golpistas, mas sem esquecer das boas notícias e de matar os mosquitos ao nosso redor

  • Há 7 anos, em mais um texto de aniversário, eu já começava a pensar na relação entre liberdade e loucura, mas, na época, eu achava que era etapa do luto

  • Hoje também faz 20 anos do ataque às torres gêmeas. Ano passado, convoquei o pessoal a compartilhar suas histórias pessoais sobre o que estavam fazendo no dia. Vale a pena ler esses incríveis relatos

  • Como a vida não passa de ficção mal feita, meu artigo da quinzena no Cinema para Sempre é sobre Metalinguagem

  • E não custa lembrar: já está à venda minha noveleta SEM LÓCUS. É a história de um triângulo quase amoroso entre um coach, uma camgirl e um entregador de aplicativo durante o isolamento social. Um (Des)Amor nos Tempos da Covid. Comprem e divulguem


Boa leitura!

Saudades, saúde e sorte!


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